Eu vim de lá longe, saturno ou urano, netuno ou plutão... eu vim de lá longe, acontece é que não sei não.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ruído Hermafrodita.


Tudo bem, ruído, você foi embora, quero música, ou nem isso, nem para ir embora, quem sabe nunca veio, nem nasceu, onde meteram o violão ?

Poderia ao menos ter deixado as cinzas do cigarro pra que eu passasse nas orquídeas, ou chegar antes que os jornais fossem jogados na frente de casa, quem sabe ainda nem nasceu, a única coisa que sobrou de você foram essas meias de lã, que mesmo assim, fui eu que te dei das minhas, como as cuecas da gaveta de cima, quando te acabavam as calcinhas limpas, o abajour como testemunha fica quieto, meu medo de morrer, cair da escada quando troco as lâmpadas mais altas, está decidido, de hoje em diante apenas velas por aqui, é mais romântico, e tenho a segurança que aqui apenas um vai chorar, já que quando você chorou foi embora, ou chorei eu, parto cesárea de risco, é o que todos que já morreram diziam, nem para nascer pela vulva/maçã proibitiva da mãe, arrancado com faca atroz direito do caule, o que me faz maleável, essa minha natureza de borracha…

Que você volte, apareça, nasça, visto todas as cuecas umas sobre as outras, visto as meias e mais nada, mesmo que aqui faça um frio danado, pulo, pulo, em fetio de oração, na sua maçã quero sementes de amanhã acordar com o som de um “bom dia”.

Não deixou nenhuma pista, espremo os lençóis para ver se você pinga gota no chão, sou cão que lambe, e tenho medo de atravessar a pista, carros que não param nem ao sinal óbvio de “nenens engatinhando na estrada: atenção”.

Nesse longe entre eu e eu-mesmo que seria diferente se fosse você a me lamber o umbigo, onde ainda guardo um pedaço de caule, a madeira prova, daqui não tiro até o dia do Juízo Final, que suponho desajuizado e preguiçoso, já era hora de aparecer, veja só em que estado me encontro, e os tremores de terra, o céu tingido de vermelho, São João visionário, e aí, nada ? Que ao menos, anjo mais vagabundo e atrofiado, que faça ela voltar, aparecer, nascer…

Ruído, quero música, onde enfiaram o violão que não sei tocar ?

Me cortaria mais do que ao meio, de mim deixaria apenas uma molécula de eu, a que rodaria sobre seu corpo-deusa, me dá licença, sou pequeno, mas fui que que fiz. E nenhuma pista, não alguma que eu possa atravessar, sem ser atropelado pela minha parte que pisa fundo, que invade muros, fazendas, atlas geográficos, no delírio maçã sem juízo, sem semente, um perfume de fedor amadeirado, em busca de você, que foi embora, que não veio, que insiste em não nascer…

Juro que uso camisinha, juro que não assisto futebol na hora da novela, juro que aprendo a gostar de lentilha com farofa. Faz favor, assopre uma vela e fique nua dentro dos músculos do meu abraço embrião, curvadinho sobre o próprio eixo: não sou mesmo muito de falar em público e em amor.

Pulo e pulo de cuecas e meias, logo batem de novo os jornais dentro da garagem, diga-se de passagem, vazia( será um sinal ?), frio danado, se aparecesse o violão, se eu aprendesse a tocar, nadar, assobiar, fazer bola de chiclete, sorrir para quem sorri para mim, tomar café sem derramar no colo, que te daria sem dormir, expulso que fui do colo, à faca, na marra, cordão em volta do pescoço, sei como dói a falta de um lugar de cafuné…

De novo e de novo e de novo, as notícias dos jornais estão ficando antigas, e você não volta, não aparece, não nasce ? O anjo mais vagabundo, diria eu.

É páreo duro ? É ranzinza ? Tá fazendo manha ?

Que pego no pau, rasgo os panos pudicos, bato uma punheta e gozo sobre as meias, um pouco nessa, um teco na outra, que me fecunda o pé, um pouco de porra absorvida, e escorre o resto, gota no chão, entende que estou me vingando, entende que estou provocando, entende que chega desse ruído quieto ? Gozei nas suas que eram minhas, meias, e você não faz nada ? Não vem reclamar ? Não me liga seu advogado ? Nem para ser fantasma a me assombrar e despetalar as orquídeas descoradas nas páginas dos jornais ? Nem ?

Nada ?

Volte, apareça, nasça…

Nada!

Amanhã de novo tudo isso ?

Tudo que é nada disso ou de qualquer outra coisa que me divida: lábios em um s
orriso.

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